Soja, Trigo e a Desdolarização: Qual Será a Primeira Commodity Agrícola a Romper a Hegemonia do Dólar?
A geopolítica de 2025 está marcada por um movimento cada vez mais forte em direção à desdolarização.
O petróleo, pela centralidade energética e pelo poder de negociação da OPEP+, é amplamente apontado como a primeira commodity a ser cotada e liquidada de forma consistente em moedas alternativas ao dólar.
No entanto, quando o foco se desloca para os alimentos, especialmente soja e trigo, a disputa ganha contornos diferentes.
Ambos têm papel estratégico na segurança alimentar global, mas a soja desponta como a commodity agrícola mais próxima de liderar o processo de desdolarização.
Por Que a Soja Está à Frente na Desdolarização?
O Fator China: A Supercompradora de Soja
A China é, de longe, o maior importador mundial de soja, utilizada principalmente para ração animal e produção de óleo.
Já o Brasil é o maior exportador.
Essa relação bilateral cria o ambiente perfeito para o rompimento com o dólar.
-
Acordos de Swap Cambial: Brasil e China já possuem mecanismos de liquidação em moedas locais (Real e Yuan), sem necessidade de conversão para dólar.
-
Interesse Estratégico da China: A gigante asiática busca reduzir sua vulnerabilidade às sanções americanas. Ao garantir o fornecimento de soja em Yuan, ela protege sua segurança alimentar e fortalece sua moeda.
-
Prática em Andamento: Algumas transações de soja Brasil-China já são feitas diretamente em Yuan, acelerando a transição.
Vulnerabilidade Geopolítica
A soja não é apenas um produto agrícola.
É uma commodity estratégica para alimentar populações e rebanhos.
Para Pequim, reduzir a dependência do dólar nesse setor é um objetivo de segurança nacional.
Isso torna a soja a ponte ideal para um comércio agrícola fora da órbita americana.
E o Trigo? Obstáculos à Desdolarização
Apesar da importância global do trigo, sua transição é mais lenta por três razões principais:
-
Fragmentação dos Fornecedores: Rússia, Ucrânia, EUA, Canadá e Austrália competem diretamente. Essa diversidade dilui a capacidade de uma coordenação firme contra o dólar.
-
Mercado de Futuros Dolarizado: As principais referências de preço global vêm das bolsas americanas, como Chicago. Para mudar isso, bolsas alternativas (como Dalian, na China) precisariam alcançar liquidez e confiança equivalentes.
-
Incentivo Geopolítico Limitado: Embora a Rússia queira vender em rublos e a China em Yuan, a maioria dos importadores de trigo — Oriente Médio e África — não tem reservas substanciais nessas moedas para sustentar o comércio em larga escala.
Previsão: Soja Lidera, Trigo Segue
A tendência mais clara para os próximos anos é a seguinte:
-
Soja: Deve se tornar a primeira commodity agrícola a ser negociada em volumes significativos fora do dólar, especialmente em acordos bilaterais entre China e Brasil. É possível até que surja um novo benchmark de preço em Yuan ou em moeda do BRICS.
-
Trigo: Caminhará na mesma direção, mas com ritmo mais lento, condicionado à criação de mercados de futuros alternativos e à adesão de países importadores a moedas como Yuan, Rublo ou Rupia.
O Papel das CBDCs e Novas Tecnologias de Pagamento
O processo de desdolarização agrícola não acontecerá apenas pela vontade política.
Ele depende da consolidação de infraestruturas financeiras alternativas.
-
CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais): O e-Yuan, o Drex e a rupia digital podem acelerar transações bilaterais sem passar pelo sistema dolarizado.
-
Sistemas Estilo Pix: Ferramentas rápidas, baratas e locais de pagamento internacional fortalecerão a liquidação em moedas nacionais.
Essas tecnologias reduzem custos e riscos cambiais, tornando o abandono do dólar mais viável.
A soja está prestes a se tornar o primeiro alimento a desafiar o dólar no comércio internacional, impulsionada pela forte relação China-Brasil e pela urgência chinesa em reduzir riscos geopolíticos.
O trigo, embora importante, seguirá esse caminho com mais cautela devido à sua estrutura de mercado mais fragmentada.
A desdolarização agrícola será um processo gradual e setorial, mas com impactos profundos: cada tonelada de soja vendida em Yuan representa não apenas uma transação, mas um passo a menos na hegemonia global do dólar
