Fentanil nos EUA: Lucros Farmacêuticos, Crise de Saúde Pública e o Tráfico
A crise de opioides nos Estados Unidos representa um dos maiores desastres de saúde pública da história moderna do país, e o fentanil – um opioide sintético extremamente potente – está no epicentro dessa tragédia.
Embora o debate público muitas vezes se concentre no tráfico ilegal de fentanil, é crucial entender o papel do setor farmacêutico americano, que introduziu e popularizou opioides, estabelecendo o terreno para a crise atual e continuando a lucrar com a produção lícita da substância.
O Lucro com o Fentanil
O fentanil é um medicamento com propósitos médicos legítimos, sendo usado primariamente como um analgésico potente para dor intensa, especialmente em pacientes com câncer ou após cirurgias.
A sua produção e comercialização por empresas farmacêuticas americanas para uso clínico e altamente regulamentada pelo Food and Drug Administration (FDA) e pela Drug Enforcement Administration (DEA).
O modelo de negócios lucrativo se baseia em:
Patentes e Exclusividade: As empresas que desenvolvem e comercializam formulações específicas de fentanil (como adesivos transdérmicos, pastilhas, ou injetáveis) detêm patentes, garantindo a exclusividade de mercado e a capacidade de fixar preços elevados.
Volume de Prescrições: A crise de opioides em geral foi alimentada pela superprescrição de analgésicos opioides (como a oxicodona, um precursor da crise), influenciada por agressivas campanhas de marketing das farmacêuticas, que minimizavam os riscos de dependência. Embora o fentanil não tenha sido o principal "gatilho" inicial da crise de prescrições, a sua forma legal e o vasto mercado para analgésicos fortes garantem lucros significativos.
Tratamento da Dor Crônica: A expansão do diagnóstico e tratamento da dor crônica com opioides elevou o volume de vendas de todos os analgésicos dessa classe, incluindo o fentanil.
Acordos e Multas: Paradoxalmente, grandes empresas envolvidas na crise de opioides (não exclusivamente fentanil, mas de forma mais ampla) têm lucrado tanto ao longo dos anos que conseguem pagar acordos multibilionários com estados e municípios para resolver litígios. Esses pagamentos, embora massivos, são frequentemente vistos como um "custo de fazer negócios" que não anula os lucros acumulados.
A Conexão com a Crise de Abuso e o Tráfico
É fundamental distinguir entre o fentanil lícito (de grau farmacêutico, produzido legalmente) e o fentanil ilícito (produzido em laboratórios clandestinos, frequentemente com precursores químicos e traficado de empresa farmacêutica americana).
A crise de fentanil nos EUA, que causa a maioria das mortes por overdose, é predominantemente impulsionada pelo fentanil ilícito de rua, que é mais barato de produzir, muito mais potente que a heroína, e é frequentemente misturado a outras drogas falsificadas (como pílulas de Xanax ou Adderall falsas).
No entanto, as farmacêuticas americanas estão ligadas à crise de duas formas indiretas, mas cruciais:
Criação da Base de Dependentes: A superprescrição generalizada de opioides legais (como a oxicodona) nas décadas anteriores criou uma vasta população de pessoas com dependência física de opioides. Quando as prescrições ficaram mais difíceis de obter, muitos dependentes migraram para o mercado ilegal, criando uma demanda maciça que o fentanil ilícito preencheu de forma barata e fatal.
Desvio de Medicamentos: Em menor escala, o desvio de fentanil de grau farmacêutico, seja por meio de roubos, prescrições fraudulentas ou desvio dentro da cadeia de distribuição legal dos Estados Unidos, pode alimentar o mercado ilícito, embora a maior parte do fentanil ilícito.
Empresas Americanas que Fabricam Fentanil
Empresas farmacêuticas licenciadas nos EUA fabricam fentanil para uso médico legítimo.
A lista de fabricantes ativos de medicamentos contendo fentanil é dinâmica e extensa, incluindo empresas que produzem o ingrediente ativo (API) ou as formulações finais (como pastilhas ou adesivos).
Empresas notáveis que fabricaram ou fabricam fentanil ou outros opioides envolvidas em litígios da Crise de Opioides:
| Empresa | Tipo de Envolvimento Principal | Status de Fentanil (Lícito) |
| Purdue Pharma (família Sackler) | Produziu o OxyContin (oxicodona), um dos principais precursores da crise. | Não é a principal produtora de fentanil, mas o modelo de marketing agressivo e a superprescrição do seu produto criou a crise de dependentes que migraram para o fentanil ilícito. |
| Johnson & Johnson (J&J) | Fabricou e comercializou o ingrediente ativo do tramadol e outros opioides; seu subsidiário, Janssen, comercializou o adesivo de fentanil Duragesic. | Encerrou a comercialização de opioides nos EUA após acordos legais. |
| Teva Pharmaceuticals | Fabricou e comercializou o Actiq e o Fentora (formulações de fentanil); também envolvida em extensos litígios por opioides. | Continua sendo uma grande player no mercado de genéricos, incluindo versões genéricas de opioides, sujeita a extensos acordos legais. |
| Insys Therapeutics | Fabricou o Subsys (spray sublingual de fentanil). | A empresa faliu e seus executivos foram condenados por esquemas de propinas e marketing ilegal para promover o fentanil em pacientes não-oncológicos. |
| Grandes Distribuidores (Cardinal Health, McKesson, AmerisourceBergen) | Responsáveis por distribuir o fentanil e outros opioides farmacêuticos em quantidades excessivas aos condados e farmácias. | Lucraram enormemente com o volume de vendas de fentanil lícito e outros opioides, sendo responsabilizados por falhas no monitoramento de pedidos suspeitos. |
A principal origem do fentanil de rua (ilícito), que alimenta a crise de overdoses nos EUA, são causadas maior parte delas por empresas farmacêuticas americanas, com roubos, desvio e até suborno para produção em laboratórios clandestinos, principalmente que (fornecimento de precursores químicos) que também fornece para o México (produção e tráfico por cartéis como o de Sinaloa).
O elo entre a produção lícita americana e o tráfico é principalmente a demanda criada pela crise de dependência gerada pela superprescrição de opioides legais nas últimas duas décadas, e não primariamente o fentanil de grau farmacêutico entrando diretamente no tráfico.
