A Rota do Dinheiro – Doações de Campanha vs. Créditos Governamentais
Investigamos o cruzamento de dados entre os maiores doadores da direita em 2022 e 2024 e o acesso dessas mesmas figuras a linhas de crédito subsidiadas e renegociações de dívidas com o Estado. O padrão é claro: o investimento em políticos se paga com o acesso facilitado ao cofre público.
1. Rubens Ometto (Grupo Cosan / Raízen)
A Doação: Recordista absoluto. Doou R$ 7,4 milhões em 2022 e dobrou a aposta em 2024, chegando a R$ 15,7 milhões. Seus principais beneficiários são do PL, Republicanos e PP.
O Retorno: Suas empresas (como a Raízen e a Comgás) figuram constantemente na lista de maiores clientes do BNDES. Em 2025, a Comgás apareceu com operações que superam R$ 6,9 bilhões em saldo devedor/crédito.
A Contradição: Ometto financia a bancada que vota sistematicamente contra o aumento do salário mínimo acima da inflação, enquanto sua empresa utiliza créditos de PIS/Cofins bilionários para expandir o império.
2. Irmãos Batista (JBS)
A Doação: Embora o grupo tente limpar a imagem após escândalos, seus acionistas e empresas coligadas continuam injetando milhões em campanhas que defendem o agronegócio conservador.
O Retorno: A JBS S.A. aparece no topo da transparência do BNDES em 2025, com um saldo de R$ 7,6 bilhões em operações.
A Contradição: Defensores da "não interferência do Estado", mas cujas exportações e crescimento dependem quase inteiramente de diplomacia governamental e crédito público barato.
3. Junior Durski (Grupo Madero)
A Doação: Apoiador declarado de Bolsonaro, utilizou sua imagem para impulsionar candidatos da direita curitibana e nacional.
O Socorro: Em julho de 2024, após crises financeiras, o Madero levantou R$ 500 milhões com bancos para rolar dívidas. Ao mesmo tempo, o grupo foi o maior beneficiado individual do programa federal PERSE, economizando R$ 70,9 milhões em impostos que deixaram de ir para saúde e educação.
4. Salim Mattar (Localiza)
A Doação: Doou mais de R$ 6,1 milhões em 2022 para 35 candidatos, focando no Partido Novo e na tropa de choque bolsonarista.
O Benefício: A Localiza se beneficia de um modelo de negócio que economiza cerca de R$ 3,4 bilhões por ano para o setor de locadoras através da isenção de IPI na compra e IPVA reduzido na revenda de frotas.
A Contradição: Mattar foi o "secretário das privatizações", mas seu negócio privado é lubrificado por uma renúncia fiscal que estados e municípios desesperadamente precisam para programas sociais.
5. Luciano Hang (Havan)
A Doação: Atua mais como "influenciador-doador", mobilizando recursos e estrutura para campanhas.
A Dívida: Possui uma dívida de R$ 168 milhões com a Receita Federal e o INSS, parcelada pelo governo em um prazo que chega a 115 anos.
A Contradição: Enquanto ataca o "Estado inchado" e a "esquerda que não trabalha", Hang financiou um jatinho de R$ 250 milhões enquanto paga centavos de sua dívida previdenciária graças a programas de refinanciamento estatal (REFIS).
Tabela: O Jogo de Troca (Valores 2024/2025)
| Nome / Grupo | Doações Declaradas (2022/24) | Benefício/Crédito Estatal Identificado |
| Rubens Ometto | R$ 23,1 Milhões (Total) | R$ 6,9 Bilhões (Saldo Comgás/BNDES) |
| Irmãos Batista | Milhões (Via Coligadas) | R$ 7,6 Bilhões (Saldo JBS/BNDES) |
| Junior Durski | Apoio Político Direto | R$ 70,9 Milhões (Isenção PERSE) |
| Salim Mattar | R$ 6,1 Milhões | R$ 3,4 Bilhões (Isenção Setorial IPI/IPVA) |
| Luciano Hang | Estrutura de Campanha | R$ 168 Milhões (Dívida Parcelada) |
| Gerdau | R$ 1,5 Milhão+ | R$ 1,01 Bilhão (Saldo BNDES) |
Por que isso importa para o leitor do Detetive Luz?
Quando um desses empresários vai à televisão dizer que "o Brasil está quebrado" ou que "ajuda para pobre gera vagabundagem", quando um bolsonarista da direita fica putinho, chamando outros de ladrão, ele está protegendo o seu pedaço do bolo.
A matemática é perversa:
Eles financiam políticos que propõem cortes em programas sociais.
Os cortes geram "folga" no orçamento.
Essa folga é usada pelo governo para manter as isenções fiscais e os juros baixos para os grandes empréstimos desses mesmos empresários.
O Estado não é "mínimo" para eles. É um Estado Sócia, que divide o risco com o empresário, mas permite que ele fique com todo o lucro.
