Privilégio Exorbitante” do Dólar
O que sustenta a alta dívida dos Estados Unidos é, em grande parte, a demanda global pelo Dólar e, consequentemente, pelos Títulos do Tesouro Americano.
E o surgimento de novas tecnologias de pagamento ou moedas de reserva tem o potencial de minar essa sustentação.
Se o mundo começasse a adotar em larga escala um modelo como o Pix do Brasil – ou, mais precisamente, sistemas de liquidação doméstica e internacional que não usam o Dólar – o "privilégio exorbitante" americano seria seriamente ameaçado.
Impacto do Pix e as Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs)
O impacto de uma tecnologia como o Pix, ou de sistemas de pagamentos internacionais semelhantes, pode ser dividido em dois níveis:
Nível Doméstico e Comércio de Varejo (Pix-like)
O Pix é uma ferramenta de pagamento de varejo. Se os EUA adotassem um sistema doméstico similar, isso não afetaria diretamente a dívida federal.
No entanto, o verdadeiro risco surge quando outros países, em especial mercados emergentes, criam e interligam seus próprios sistemas para transações transfronteiriças, contornando o Dólar e as redes financeiras ocidentais (como o SWIFT).
O Risco da Liquidação Local: Países como a China e a Rússia têm trabalhado para usar suas próprias moedas em acordos bilaterais de comércio. Se a tecnologia (seja o Pix ou um sistema de CBDC) tornar a liquidação em Yuan, Real ou Rupia mais eficiente e barata do que usar o Dólar, a demanda por Dólares no comércio internacional cairá.
Nível Internacional e as CBDCs (O Grande Risco)
O maior perigo para o Dólar não é o Pix em si, mas as Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs), que alguns países estão explorando para pagamentos transfronteiriços.
Imagine um sistema internacional onde:
O Banco Central da China (PBOC) utiliza o e-Yuan para liquidar transações de petróleo com a Arábia Saudita, sem precisar converter para Dólar.
O Brasil utiliza o Drex para fazer pagamentos de importação diretamente em moeda digital brasileira para a Europa.
O Efeito:
Redução da Demanda por Reservas: Países não precisariam manter trilhões de Dólares em reservas (títulos do Tesouro) apenas para garantir seu comércio. Se a necessidade de Dólar cair, o mundo começará a vender ativamente os títulos americanos.
Disparo dos Juros: Essa venda maciça reduziria a demanda pelos Títulos do Tesouro dos EUA. Para conseguir financiar sua dívida crescente, os EUA seriam forçados a oferecer juros muito mais altos.
Aumento Insuportável do Custo da Dívida: Como vimos, o custo anual de juros já está em níveis recordes. Se as taxas dispararem, os gastos com juros podem se tornar a maior despesa do governo, forçando cortes dramáticos em programas essenciais, levando à crise fiscal e à instabilidade política.
É a Sustentação, Não o Pagamento
Se o mundo parar de usar o Dólar como padrão, a dívida dos EUA se tornará insustentável na sua forma atual.
A "quebra" dos EUA não viria de um calote tradicional, mas sim de uma crise de confiança global no Dólar, provocada por alternativas de pagamento mais eficientes e uma coordenação geopolítica que busca contornar a hegemonia americana.
O Pix, as CBDCs e a coordenação de blocos como o BRICS representam os primeiros passos nessa direção.
A dívida não é impagável, mas o custo de sustentá-la pode se tornar insuportável sem o "privilégio exorbitante" do Dólar.
Qual você acredita que será a primeira grande commodity a ter seu preço cotado e liquidado consistentemente em uma moeda diferente do Dólar
